sábado, 12 de março de 2016

DEPUTADOS versus PROFESSORES

Por vezes, vale à pena fazermos comparações para termos ideia sobre as escalas que diferenciam as coisas. Um exemplo disso é o caso da comparação salarial entre Deputados e Professores. Os 513 Deputados custam mais de R$ 1 bilhão por ano ao contribuinte (fonte: este site). A pergunta que fica é: e os professores da rede estadual, por exemplo? Segue abaixo uma informação coletada no mês de março de 2016. Analise cada informação:

Deputados

Veja a tabela de benefícios (até fevereiro de 2016) (extraido deste site):
BenefícioMédia mensalPor ano
SalárioR$ 33.763,00R$ 438.919,00
Ajuda de custo (1)R$ 1.406,79R$ 16.881,50
Cotão (2)R$ 39.884,31R$ 478.611,67
Auxílio-moradia (3)R$ 1.608,34R$ 19.300,16
Verba de gabinete para até 25 funcionáriosR$ 92.000R$ 1.104.000,00
Total de um deputadoR$ 168.662,44R$ 2.023.949,28
Total dos 513 deputadosR$ 86.523.831,72R$ 1.038.285.980,64


Carros oficiais. São 11 carros oficiais para uso dos seguintes deputados: o presidente da Câmara; os outros 6 integrantes da Mesa (vice e secretários, mas não os suplentes); o procurador parlamentar; a procuradora da Mulher; o ouvidor da Casa; e o presidente do Conselho de Ética.

OBSERVAÇÕES:

  1. Ajuda de custo. O 14º e o 15º salários foram extintos em 2013, restando apenas a ajuda de custo. O valor remanescente se refere à média anual do valor dessa ajuda de custo, que é paga apenas duas vezes em 4 anos.
  2. Cotão. Valor se refere à média dos 513 deputados, consideradas as diferenças entre estados. A média não computa adicional de R$ 1.353,04 devido a líderes e vice-líderes partidários. O Cotão inclui passagens aéreas, fretamento de aeronaves, alimentação do parlamentar, cota postal e telefônica, combustíveis e lubrificantes, consultorias, divulgação do mandato, aluguel e demais despesas de escritórios políticos, assinatura de publicações e serviços de TV e internet, contratação de serviços de segurança. O telefone dos imóveis funcionais está fora do cotão: é de uso livre, sem franquia. O cotão varia, de estado para estado, de R$ 30,4 mil a R$ 45,2 mil, conforme a relação abaixo (valores em R$):


E os Professores ?


Segundo a Organização para a Cooperação Desenvolvimento Econômico a referência anual seria de $ 29.411 (Dólares), ou seja, R$ 106.676,64 (cotação do dólar em Março de 2016). Mas nem sempre isso é o que acontece!

Na verdade, a média dos professores brasileiros da rede de ensino médio fica em torno de $ 10.375, que por si só já fica muito abaixo da metade sugerida pela OCDE (conforme matéria deste LINK ).


Resultado Médio por Ano


R$ 106.676,64  vs.  R$ 2.023.949,28 
(PROFESSOR)             (DEPUTADO)


Diferença = 19 vezes


segunda-feira, 7 de março de 2016

Um Banquete

Um Banquete
(por João Araújo)

O banquete vai ser servido mas, antes, é necessário o seu preparo delicado. Não há festejos, nem solenidades... não há sorrisos... não há nem a regalia das aparências... Onde andará o amphitryon de Molière? Chamem a moça que ficou de vir de vestido longo... e era vermelho... Convites sofisticados em alto-relevo, idades doiradas, batons, pós-de-arroz, jóias e encantos… sumiram todos... Todos não é tudo... As idades pararam... Mas que raio de banquete é este?! Só há um convidado: a preparar tudo, a receber-se, a cumprimentar-se... Corram! Corram! Os criados esqueceram de acender as luzes dos salões! Mas que salões e criados o quê, se nem o singular deu a cara ainda!?... Os holofotes não escusam por esconderem as sombras... A cozinha é fria, a torneira roda, a água cai, a panela enche. Tragam-me da dispensa, um pouco do requinte dos temperos finos e iguarias do Oriente. A governanta conseguiu retornar de Champagne com a lista das compras? Nem a lista, nem as compras... Quem escreveu o quê? E as ovas do esturjão? Onde estão? Nem no chão... Não, parece que ela preferiu ir para Milão... Mas que diacho de banquete é este?! A água é fria, o fogo acende, o metal esquenta. Menina, você é novata: arrume esse uniforme e preste atenção nos mais antigos! Onde está toda a gente? Ela vai ver e rir? Senhor maître, vai querer quantos tipos de canapés? Não importa, o sabor muda de acordo com a esperança... Ponham para gelar as garrafas de vinho das melhores castas. Onde estão todas elas? O salão e as mesas já brilham, de se perderem nas vistas... Está tudo posto como rege a etiqueta, como manda o figurino: colheres, garfos, facas e o cristal das taças sem as marcas dos dedos... Está tudo perdido das vistas... Toda a gente nos seus postos? Para quê? Ela vai ver e rir? E se essa gente tiver medo das suas dores amanhã? Toda a gente? Ela vai ver e rir... Aquele enólogo vai aprovar esse bouquet estupendo e a gente toda vai se perfumar... A gente?! Mas que gente?! A gente vai ver e rir? Se eles tiverem medo da dor, vai alterar o sabor dos canapés... Corram! Avisem a todos sobre as esperanças! Mandem eles virem com as promessas debaixo do braço, além do traje a rigor. Onde está ver e rir? Mas que diabo de banquete é este?! Ajeitem essas gravatas-borboleta. Os portões já estão abertos? Vão abrir urgente, o Tempo pode ser o primeiro a chegar... O fogo insiste, o metal conduz, a água aquece. E se aquela dama estiver com dificuldades com o itinerário? Essa ansiedade, essa expectativa... Isso pode lhe alterar o perfume do vinho... Só há um anfitrião: a sorrir-se, a abraçar-se, a beijar-se... Ao menos os risos forçados ainda se sustentam... Até quando?... Onde ela foi ver e rir? Mordomo Alex! Mordomo Petrius! Tomem tento nos convidados! Poderia ter sido Charles... Madame, oh-ho-ho-hos... Mademoiselle, ih-hi-hi-his... Sintomas de alegrias... Monsieur, com-licenças, eu-peço-desculpas, ah-ha-ha-has, eh-he-he-hes, obrigadinhos pra lá, muitos-prazeres pra cá. Onde estão as vozes, os burburinhos, os cochichos?!... Por falar em prazeres, o que é melhor mesmo: a esperança ou o temor? E se ela pedir para ir ao toilette? Onde ela vai? Onde ela foi? Ver e rir? Um banquete de um homem só... Que danado de banquete é este, meu Deus?! Acho que o bacalhau ficou um pouco salgado... Sonha com um futuro agradável que melhora... A senhorita aceita uma dose de licor? Mas se eu nem participei da ceia ainda... Tudo tem a sua primeira vez... Está bem, vou aceitar só um pouquinho, porque o senhor sabe que eu não estou aqui, não é mesmo?... Só há uma pessoa: a servir-se, a conversar-se, a desconhecer-se... Já o salmão ficou insosso... Nesse caso, cessa a dor que ele vai ficar no ponto. Mas qual delas? Não aprendeu ainda? A maior é claro! Quanto maior a dor estancada, maior o prazer; mas vai logo, pois não dá para aguentar por muito tempo... E o vermelho do vestido? Já chegou? Vermelho é a cor mais rápida! Pelo menos isso: era a promessa que faltava para dar gosto às perdizes... Nos convites indicavam que era para os senhores virem de smokings... Mas e se os Smokings chegarem primeiro? Manda aguardarem no Bar e serve um aperitivo... Quem sabe, com a espera, eles não se transformem no vestido vermelho?... A água recebe, a temperatura aumenta, a matéria agita. Nesse caso, é melhor contabilizar quantas esperanças e quantos temores ainda temos para condimentar o restante dos pratos principais. Não há problemas, os convidados trazem de sobra. Olá, como vai? Caríssimos... Lindinhas... Minhas senhoras... Meus senhores... Seria quase: Respeitável Público! Ladies and Gentlemen! Isso já é exagero... Que banquete medonho é este, meu Deus?! E os irmãos Verri? Confirmaram presença? Não sei se vão tomar champagne... Seja o que for, que tragam as esperanças... Cozinheiras e garçons atentos, ouvi um ruído!... Deve ter sido o amarelo do vestido... Violinos, violas, cellos, sutilezas sonoras: le Orchestre… Os músicos chegaram? E a moça? Está longa e vermelha… Ah, certo, a espera dela... Não, a música... Dela?... O temor vem de black-tie... Isso já sabíamos... Já avisei para tomar cuidado com os singurales da vida... A moça já envelheceu... Ver? Rir? Já não se sabe... Ninguém veio ver e rir... Ninguém vem, venho Eu... Será um banquete de misantropos? Eu só mais Eu... Eu sou Maiseu. Já é alguma coisa. Le misanthrope. Agora sin, de singular… Sim, mas diga quantas eram as esperanças mesmo? Não sei. Poquelin de novo? Nem isso… Só sei que a soma de todas as dores é muito maior do que a dos prazeres. Mas é tanto assim?... Aí você já está querendo saber demais... Pergunta a eles... A matéria ferve, o vapor se espalha, a água borbulha. Eles quem? Os convidados que não existem. Meu Deus! Que banquete!? Droga, me queimei...
MENSÃO HONROSA NO CONCURSO NACIONAL DE CONTOS
MIGUEL SANCHES NETO” EDIÇÃO 2011 - CATEGORIA NACIONAL

sábado, 5 de março de 2016

3 Situações Básicas sobre o Cumprimento da Lei

1) Um cidadão de bem é parado por uma Blitz na estrada. O guarda lhe pede para mostrar o documento do carro e fazer o teste do bafômetro. Se o cidadão se negar a fornecer as informações à autoridade, o que será que ele está escondendo?

2) Um pai de família que caminha pela rua é parado por dois policiais que lhe pedem para mostrar a carteira de identidade. O que custa ao cidadão fornecer esta informação básica aos que fazem o trabalho de rotina da segurança pública?

3) Um outro cidadão (que por acaso é político) é chamado para depor na Polícia Federal. Se este cidadão não deve nada à Lei, porque se nega a colaborar com as investigações que estão em curso?

quinta-feira, 3 de março de 2016

MEMÓRIAS DA IMPRENSA

"Memórias da Imprensa", música que compus e que tive a alegria de ser interpretada pelo amigo Emerson Sarmento. A música recebeu um arranjo musical massa e criativo do amigo Elton Sarmento. Ao fim da gravação, eu declamo um pequeno trecho do meu conto "Ensaio sobre a Senhora H.". Gostaria de agradecer a todos vocês que participaram desta gravação, amigos!


Concepção da Música
"Memórias da Imprensa"

O formato da letra de “Memórias da Imprensa” foi baseado no conceito de texto fragmentado. Ao abrirmos um jornal, deparamo-nos com uma mescla de notícias negativas e banalidades. Dentre as temáticas exploradas, estão a corrupção, o carnaval, a cultura de massa, etc. Entretanto, dessa aparente fragmentação jornalística, persiste o relato recorrente da morte de mais um trabalhador brasileiro, fruto da violência que circunda as nossas cidades. No fundo, esta é a notícia mais importante do Semanário e que luta para se sobressair diante de todas as outras notícias. Uma tensão é gerada e a ideia de fragmentação textual cria um tecido coerente que muitas vezes toca o domínio da ironia para denunciar o descaso e o caos que imperam na sociedade dos tempos atuais.




Memórias da Imprensa
de João Araújo

… e sucumbiu,
Banhado de sangue por todo lugar…
O culpado sumiu
Mas vive na boca do povo a girar
Gerou uma mistura de notas na folha tão branca do semanário:
"Seguia pelos Peixinhos"…
"Olha a onda gigante"… … "vende-se"… "mais um carnaval"…

… o moço partiu
Do jeito que veio sem ninguém notar
E o prelo tingiu
Um festim de palavras pra homenagear:
"Igreja inaugura uma nova e humilde"… "Empresa de Corrupção"… 
"A vítima tinha um filho"…
"Animal leiloado"… "Futebol é a nossa paixão"…

… ninguém nunca viu
Uma mãe num estado sem consolação
A foto saiu 
Preta, branca, vermelha e sem resolução
"Polícia prende"… "Cultura" … "assista à novela"… "é uma emoção"…
"Morre um trabalhador"…
"Desfrute o sabor da cerveja, nesse verão"…


[…] Ando por aí à solta e lépida como nunca debochando do mundo. […] Encontro-me a passear nos carros conversíveis, a beber e a gargalhar em ilhas privadas, nos países, nos continentes. […] Herdei o registro do beijo que Judas Iscariotes eternizou. As minhas origens apontam para desde antes de Caim chegar a Nod, levando consigo o destino nômade dos homens. Detenho o gérmem mais antigo da evolução dos hominídeos, dos gorilas, dos primatas, dos bichos. Sou irmã das tentações e mulher de todos os interesses. Eu sou um vírus, uma essência venenosa, uma infecção moral. Cresço com as ações dos homens. Incrusto-me nas suas mentes. Contudo, nem sempre o meu nome é mencionado com clareza. […] 
(Trecho do conto “Ensaio sobre a Senhora H.” de João Araújo)

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Dicas Culturais - Downloads Gratuitos

Seguem abaixo alguns Links para Downloads gratuitos de livros, textos e ensaios em geral. Às vezes, depois de um tempo alguns dos Links podem ser desativados ou trocar de endereço. Portanto, aproveite o quanto antes.
  1. Grupo de Estudos Foucaultianos: Livros para Download
  2. Michel Foucault (+32 livros para download gratuito): LINK
  3. Pierre Bourdieu (18 livros + 21 artigos sobre sua obra): LINK
  4. 34 Contos Africanos para Download Gratuito: LINK
  5. 39 obras de Hannah Arendt, Adorno, Benjamin e Habermas disponíveis para download: LINK

sábado, 20 de fevereiro de 2016

A Formação da Cultura Brasileira

No Video a seguir, uma rápida e básica viagem sobre a formação dos pilares da cultura brasileira.


Ratazana de Paletó (Corrupção)

A palavra de ordem que me levou a compor esta música foi indignação. Acho que estamos cansados de presenciar em nossas vidas tantos casos de falcatrua com tanta frequência. Peguei-me a pensar no caso da corrupção no plano político e veio-me a imagem de uma Ratazana de Paletó.

Seguiu, assim, um desabafo, que fui organizando em forma de canção. Se você estiver também indignado com tudo isso o que está acontecendo contra o Brasil, tudo isso o que estão fazendo contra você e contra a sua família, toda essa palhaçada que estão fazendo com o futuro dos seus filhos e netos, então escute esta música. 





Corrupção (Ratazana de Paletó)


Cambada de gatuno
Ratazana de paletó
Larápio carrancudo
Utopia do xilindró
Escapa sorridente,
Escorrega, compra gente
E volta sempre e a gente vota
Porque a gente vota sempre?!...


Quadrilha de "Al Capone"
"Alibabaca" tupiniquim
Cachorro "morta-fome"
Rouba a mãe, bicho ruim!
Coloca o poder público
A serviço da tua gangue
Quero mais um Ministério,
Bolsa-voto, bolsa-império


Assassino da confiança
Mafioso Federal
Ladrão da esperança
Fundador do paraíso fiscal
Resolvo os seus problemas
Sou sua doce alma-gêmea
És mesmo um filho da pátria-mãe
Mereço o irmão que tenho


Será que os nossos filhos viverão uma Nação?
Serão os nossos netos afortunados cidadãos?
Quem puxará definitivamente o freio de mão?
Podemos num conchavo encontrar a solução...


É dono da polícia,
Comprou Juiz e o escambau...
Estuprou a honestidade
Nova lei ditatorial
Chafurda companheiro
Que a liberdade de expressão
Pode ser contra a tua Laia
Escumalha de aldrabão


Carcará insaciável
Infeliz humanização
Criatura imprestável
Vergonhosa criação
Carrega tua mesada
Mendiga o teu milhão
Ó Judas do Planalto
Teu assalto é deserção


Urubu de empreiteira
Verminose social
Desfruta da nojeira
Nossa escória nacional
Ó corja dominante
Ó alcatéia de atrofiados
Abocanha a carniça
Mas leva aqui o meu bom bocado


Corrupção... que opção?
Corrupção... que opção?
Corrupção... que opção?
Corrupção... que opção?
Corrupção... é opção?!

Corrupção: como convencer o "todo" a mudar as suas "partes"?

De um bom tempo para cá, estamos todos presenciando uma grande onda informativa sobre casos de corrupção. A cada semana, às vezes a cada dia ou a cada mês surge um novo caso, um novo absurdo, que ilustra os noticiários e as nossas vidas. Estamos exaustos disso. 

É notório que a corrupção não ocorre apenas no Brasil. Está longe disso. É um problema mundial. A corrupção também não é um privilégio da esfera política. A semente da corrupção é cultural. E se essa semente germina, qual erva daninha, aí sim ela pode crescer e povoar campos perigosos da sociedade, como é, justamente, o caso da povoação da esfera política. 

É esse o estado de sítio em que o Brasil se encontra. A erva daninha já invadiu todos os espaços da sociedade e fincou raízes tenebrosas na política do país. Existem pessoas nos mais importantes postos que fazem uso dos seus relacionamentos, utilizam a sua posição privilegiada para agendar e tocar para a frente projetos egoístas e criminosos em detrimento do todo. Tais projetos causam prejuízos quase irreparáveis para o bem estar da sociedade, para as necessidades básicas da população e passam por cima da confiança que esta mesma comunidade depositou neles em tempos eleitorais.

A solução complexa viria de uma revolução sócio-cultural, uma reforma política rigorosa e principalmente uma reformulação no programa educacional que tenha alcance profundo a ponto de conseguir atingir e modificar sensivelmente as células constitutivas de toda a população. É um trabalho para ser levado a peito durante décadas, gerações e mantido sob vigilância constante. Vai muito além dos interesses partidários. Está acima disso tudo. É preciso "muito querer" e muita "determinação". Como convencer o Todo a mudar as suas Partes

quinta-feira, 16 de abril de 2015

VI (intermédio)


VI (intermédio) 


...entreguei-me por um instante à deambulação... assim,
fui tornando-me um pouco mais experiente
no reconhecimento do território...
chegavam muitos forasteiros...
não estavam à toa,
procuravam algo e
traziam, consigo, certa ansiedade e medo...
eu comecei a dar as mãos
aos que pareciam mais perturbados... 
inventava forças e o plano funcionava:
aos poucos eles iam sentindo-se mais seguros... 
porém, era apenas uma questão de tempo 
pois, quando as suas confianças eram restauradas, 
reconheciam, em meio à heteróclita massa,
um grupo qualquer, supostamente de seus semelhantes... 
depois,
julgavam-me com os olhos, 
desconfiavam das flores que lhes havia dado, 
questionavam o meu auxílio,
até o instante em que me desconheciam
por completo
e partiam levando consigo toda a porção
da energia inventada,
que os havia oferecido... 

domingo, 5 de abril de 2015

LOA MORENA

LOA MORENA

put your headphone and enjoy the music
(coloque o seu fone de ouvido e curta a música)




LOA MORENA
João Araújo e Adalberto Cavalcanti


Uma morena pra adoçar a vida,
Pra dá guarida a um solitário coração, 
Vem cá moça bonita, flor do meu xodó, 
Vem mostrar que esse calor você roubou do Sol,

Pro seu olhar que logo me fascina, 
Jeito menina misturado com mulher, 
Faço uma loa, mirando a garoa,
E fico à toa, pronto pro que der e vier

Vem, moça bonita,
Vê minha aflição:
Meu peito aperreado só na marcação 
E na peleja de ganhar seu coração...

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Celestial

Celestial foi um choro composto a 3 mãos: por João Araújo, Francisco Fidelis e Adalberto Cavalcanti. A canção foi depois gravada pela cantora Kelly Rosa no seu CD Flor Amorosa. A música versa sobre temas como o processo criativo, a criação e sentimentos como o amor. Foi composta num período em que morei no Bairro da Várzea, Recife. Eu e Francisco Fidelis (violonista) éramos vizinhos e colegas no Departamento de Física da Universidade Federal de Pernambuco. Naquele tempo, eu estava envolvido na finalização da minha Tese de Mestrado em Física Teórica e, paralelamente, tinha várias discussões com Fidelis a respeito da Ciência e da Arte. Foram tempos muito produtivos e enriquecedores. No link abaixo, você pode escutar a música Celestial.



CELESTIAL (Choro)
João Araújo, Francisco Fidelis e Adalberto Cavalcanti

A luz, essa luz inspiração
Me traduz a sensação
De abraçar o teu calor

Paixão invadiu e me tomou
Na sonora tentação
De gerar uma canção de amor que vem
E traz toda paz ao peito meu
Suaviza a solidão
Vai, expulsa a razão 
E o sentimento extingue a dor
Vem e instala esse amor
Pelas coisas dessa vida
Que minh’alma acalentou 

Tem dias em que a vida se desfaz
Como as pétalas de uma flor
Que o tempo entristeceu
Mas não venceu
Pois uma força bem maior
Mora fundo além do tempo,
Dos olhares da razão, sim,
Paixão… criação… esse dom que seduz…
E traz a luz que invade o peito triste
A alma em riste
Afasta o mal
E o ser se faz celestial

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Ode ao Recife

A música Ode ao Recife, de autoria de João Araújo e Nuca Sarmento e interpretada pelo próprio Nuca Sarmento e grupo Voz do Capibaribe, homenageia a cidade do Recife e o seu espírito boêmio, que sempre realiza belas serenatas, regadas de choros, sambas, frevos e muito lirismo. 

A cidade transborda musicalidade e poesia através dos seus diversos bares, bairros e paisagens. Em especial, Ode ao Recife faz referência a alguns desses pontos, como por exemplo: o Teatro Mamulengo (Rua da Guia), o Bairro de Santo Antônio, a Rua da Aurora, o Bairro de Casa Forte, o Marco Zero (no Recife Antigo), o Cais José Estelita, entre outros.

Você pode escutar a gravação da música no link do Youtube a seguir.




Ode ao Recife 
(João Araújo e Nuca Sarmento)

Eu sou da lua
Sou da madrugada
Minha alvorada
Vem no anoitecer

Sou mamulengo
Dessa serenata
Que no Recife
Nunca vai morrer

Com um arsenal
De poesia e vida
Eu levo a vida
Como deve ser

Serenidade
De pierrot num palco
Animação
De arlequim que vê:

Que no Recife, ainda existe uma horda
De bons boêmios como nunca mais
Rua da Guia, Santo Antonio, Aurora,
De Casa Forte, a noite chega ao Cais

Eu sou amante de Estelita e Glória
Se por acaso o rei maltrata a flor
O Marco Zero do meu peito aflora
Capibaribe irriga com o amor

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A Liga dos Blocos

Clique para escutar a música:




A Liga dos Blocos 
Autoria: João Araújo e Luciano Magno
Interpretação: André Rio


Um Bloco com a força de um vermelho em flor,
Com a áurea cor de clara evidência amor
E não de um ouro vago esbanjo de esplendor,
Mas sim branco que veste o azul melhor do céu…
Um branco, irmão celeste, feito em doce mel
De luas tão aflitas por poetas vãos,
Vestindo cor-de-praça, esverdeado véu,
Em seu multiplicado estado imensidão…

Um Bloco como um Sol, poder de cantador,
Do negro, a densa idéia, misteriosa flor,
Do peito, a transparência do amigo leal,
De rara realeza, ardendo o Carnaval…
Um Bloco qual neblina, mãos de trovador,
Que espalha um canto exato, solta abraço e voz,
Enfeitiçando o ontem com a cor do amanhã,
Reiventando as puras cores de todos nós…

Vem senhorinha, vem minha paixão,
Vem meu amigo, vem fechar cordões,
Vamos seguindo a amiga evolução
E o amor que Liga os nossos corações

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O Velho

O Velho 

Aparentemente tão cansado, continuava, o velho, a recitar o seu breviário… 
Pele rústica, angulosa face, veludosa voz, 
Continuava a recitar o seu breviário… 
Corpo curvo, brutas extremidades, seco, sem recheio, 
Continuava a recitar o seu breviário… 
Pés descalços, pisada grossa, pelas ruas do mundo 
Continuava a recitar o seu breviário… 
Olhos vagos, sem onde, olhos sem… 
Continuava a recitar o seu breviário… 
Escutando chistes, mal dizeres, descobrindo-se louco, 
Continuava a recitar o seu breviário… 
Em meio a indiferenças, arrogâncias, exercícios de poderes, 
Continuava a recitar o seu breviário… 
Sem casa, sem bandeiras, sem outras moradas, 
Continuava a recitar o seu breviário… 
Empunhando a flor, aquela flor, a galega flor, 
Continuava a recitar o seu breviário… 
Continuava a recitar o seu breviário… 
Aquele Velho, talvez de Holanda, com uma flor pelo mundo, 
Continuava velho, 
A recitar o seu bendito breviário… 

Poema: O Velho
Publicado na "Oficina de Poesia" 
Revista da Palavra e da Imagem nº 15, II série semestral, Março 2011
Editora: Palimage - A Imagem e A Palavra
Lisboa, ISSN 1645-3662

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Capibaribe

Capibaribe

Capibaribe, velho ribeirão,
Passa a carroça
E o moleque trepida com o cipó na mão;
Passa o lixeiro, automóvel, o cheiro de chumbo e de óleo,
Passa o pipoqueiro vendendo pipoca e fumaça,
A fuligem que passa e o alcatrão;

Capibaribe da Aurora,
A tua glória parece que não passa;
Mas passa tanta vida
Carnavalesca ou não;
Pirilampos, romances, passaram, passarão
Por algum ponto de tua extensão;

Capibaribe, não és essa água ou leito
E sim o sólido da alma, detrás do peito,
Atravessada por pontes, Blocos e bondes,
Ultrapassada por sonhos, álcool, poetas,
Triscada por Galos, por saltos, favelas,
Correntezas de humores, Reis momos ou não

Capibaribe, meu irmão,
Tablado de frege, barracas, bagulhos, bijouterias,
Elefantíases, moças medonhas, odores e gritarias,
Espetos de queijo, de bicho, de gente, tapiocas,
Tua face central, borrada de lama,
Sorri, sósia minha, não conheço outra não!

Capibaribe, guerreiro sem lança, sombrinha na mão,
Sinfonias de frevos, gabirús e mosquitos
Correnteza lírica, palco de delitos,
Iluminado clarim, ferrugem sem grito,
Passam por ti, aurora e arrebol,
Capibaribe, meu irmão, abre-te rugas, a espada do Sol.


Poema: Capibaribe
Publicado na "Oficina de Poesia" 
Revista da Palavra e da Imagem nº 15, II série semestral, Março 2011
Editora: Palimage - A Imagem e A Palavra
Lisboa, ISSN 1645-3662



terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Carta para Aldemar Paiva

Carta para Aldemar Paiva


No palco da vida, foste um presente alagoano lindo para Pernambuco. Mas Pernambuco, às vezes, se esquece das dádivas que já recebeu. Por isso, cabe-nos a rotina da boa recordação. "Um sorriso, um abraço e uma flor: tudo isso é você na imaginação". E não foste apenas uma flor: foste um Jardim de Flores Raras. Com humor, fizeste poemas. Com poesia, contaste causos. Com jornalismo, escreveste canções. Sem nunca esquecer a tua cidade natal, insististe em nos dizer que Pernambuco é terra boa, o quão rica e bela é a nossa natureza, variada é a nossa cultura e importante é o nosso folclore.

Na Rádio, conduziste gostosas conversas espontâneas, feito um amigo íntimo da gente. Na prosa, foste um mestre. Nos causos, foste tanto arlequim, quanto pierrô. Na voz, foste elegância e firmeza. Para a nossa sorte, tu te fizeste o nosso poeta da saudade. Junto com Nelson Ferreira, José Menezes e outros, escreveste páginas notáveis no imenso livro do lirismo carnavalesco pernambucano. "Serpentina ou confete, carnaval de amor: tudo é você no coração". E sempre com carisma ímpar e sorriso farto, trilhaste brilhante trajetória artística nos festejos de Momo, nos estúdios das Rádios, nos palcos dos Teatros, nas páginas dos livros. Quanta risada gostosa arrancaste de nós, ao narrares tuas estórias engraçadas... Quantas lágrimas minaram dos nossos olhos, ao colocares pitadas de drama nas palavras... E no total domínio e genialidade desse teu ofício criativo, foste um grande espetáculo para o público. Aplausos mil para ti. Não houve sentimento imune às tuas palavras. E até os emblemas mundiais, como, por exemplo, o Papai Noel, rendeu-se e desmantelou-se diante do teu discurso simples e profundo de menino puro das Alagoas.

"Você existe como um anjo de bondade e me acompanha nesse frevo de saudade". Eu daria muito por mais um dedinho de prosa ao teu lado. Só iria escutar. O pouco de oportunidade que tive, valeu demais à pena. Mas agora, diante dessa distância indizível, cabe-nos sorrir com a lembrança da tua volumosa, alegre e sábia imagem, seguindo os preceitos que aprendemos contigo, afinal "quem tem saudade não está sozinho: tem o carinho da recordação. Por isso, quando estou mais isolado, estou bem acompanhado com você no coração".



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Dia do Frevo - Pura Viração

Dia do Frevo - Pura Viração

E para comemorar o Dia do Frevo, música nova saída do forno intitulada PURA VIRAÇÃO, feita em parceria com o compositor e músico Luciano Magno. Um frevo alto-astral, alegre, olhando para o futuro e com o pé sempre na MPB. Abaixo, você pode escutar a música na voz de Luciano Magno, numa gravação recente realizada para o CD Um Bloco em Poesia - 15 Anos e também conferir a letra. Curta, divulgue, compartilhe!




Pura Viração
João Araújo e Luciano Magno


Eu sou poeta, 
Ela, escorpião,
Eu trabalho a beça
E ela, malhação,
Em dia de chuva 
Prefiro me molhar
E ela se desculpa
Em noite de luar
A nossa história
Nunca vai se acabar

Ela apaga vela,
Eu rezo pra santa
Ela canta e é bela
Nunca entrei no tom
Se faz feriado
Ela quer viajar
Já eu acordo tarde
E digo que vou ficar
A nossa história
Nunca vai se acabar

Amor singular, estranha paixão 
Um veio de Tróia, o outro da Grécia
Eu sou lá da praia, ela é do sertão
O nosso romance é pura viração

É pura viração,
Pura viração,
Pura viração, pura!
Mais pura viração,
Pura viração,
Pura vira viração!

Amigo da Cultura 2015

Quero agradecer à homenagem que recebi na última sexta-feira 06 de Fevereiro de 2015, no 15° Baile Monumental realizado em Olinda, Pernambuco. O Troféu que me foi concedido chama-se Amigo da Cultura 2015 e na descrição do mesmo consta que o recebi pelos serviços prestados à Produção Cultural de Pernambuco como compositor, poeta e escritor. 

Como eu não pude estar presente, o meu pai, que também se chama João Araújo, foi o meu representante e recebeu o Diploma das mãos do Sr. Seronildo Guerra. Fico muito feliz com esta homenagem e gostaria de registrar aqui a minha gratidão a todos os envolvidos neste evento.

Seronildo Guerra e João Araújo


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Dia do Frevo - Ruas, Blocos e Canções

Dia do Frevo - Ruas, Blocos e Canções


No dia 09 de Fevereiro, em Recife, também comemora-se o dia do Frevo. O Frevo transcende o status apenas de gênero musical da música popular brasileira (o que já seria o suficiente) composto pelas vertentes frevo-de-rua, frevo-canção e frevo-de-bloco. Hoje, o Frevo trata-se de uma manifestação cultural que envolve a dança, a música, as alegorias, o folclore, a integração e dinâmica entre diversos Blocos, Orquestras de Pau-e-Corda e Orquestra de Metais, grupos de seguidores e carnavalescos, além de movimentar todo um fluxo socioeconômico de grande importância para a região e história da nossa cultura. O Frevo, portanto, representa a alma de um povo, traduzindo a sua essência e raízes.

Em Dezembro de 2012, o Frevo recebeu o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO. A seguir, o poema Ruas, Blocos e Canções foi composto para homenagear o Centenário do Frevo, virando depois uma parceria musical entre João Araújo e Luciano Magno e sendo interpretada pelo cantor André Rio no CD 10 Anos de Poesia. Você também pode assistir ao Clip Musical desta composição:



RUAS, BLOCOS E CANÇÕES
João Araújo e Luciano Magno


Meu Frevo surgiu
Da espada e da flor...
O filho da raça de um povo, 
Da gente,
da massa que sempre cantou...
Bebendo do Capibaribe,
Dos becos do velho Recife,
Do poema que o sangue é capaz,
Das pontes e bairros tradicionais...

O Frevo cresceu
Com a força e o calor
Do salto de um capoeira,
Beirando 
o infinito que um dia tocou...
Do brilho dos seus arrecifes,
Do sonho que um poeta já disse,
Orquestra, maestro, metais,
Sombrinhas solares, flabelos da paz...

O Frevo expandiu
Pela Terra, o fulgor...
Na esfera azulada, os clarins
Tocaram o que o povo sempre desejou...
Pastora, passista, cordões,
Bem-vindos aos corações...
Solfejo na voz dos corais
Regendo o segredo de mil carnavais

Toca o Frevo...
Toca mais...
Blocos, Canções, Frevos-de-Rua...
Evoluções feito a Lua,
Quando beija o Sol no Mar...


http://www.jpoeta.blogspot.com/
http://www.umblocoempoesia.blogspot.com/

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Homem-santo

Homem-santo 


Retirem 
Os pilares secretos 
Que sustentam os Homens-santos...

Procurem 
Parafusos certos 
No projeto do Homem-santo… 

Recolham esse preciso 
Adjetivo do que é santo 
E desloquem o seu pedaço 
Para qualquer outro canto...

Verão 
cair o traço do Homem-santo
Tombar 
o santo do Homem santo
Baixar 
a estatura daquele Homem 
Restar 
a fome de um homem só 
Uma forma 
pura em dom menor 
Balé 
estanque e decrescente, 
Somente 
porção do que era pó...



Poema: Homem-santo
Publicado na "Oficina de Poesia" 
Revista da Palavra e da Imagem nº 15, II série semestral, Março 2011
Editora: Palimage - A Imagem e A Palavra
Lisboa, ISSN 1645-3662

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

DÉCIMA DO FREVO

DÉCIMA DO FREVO
(João Araújo)
Assista ao Video do Youtube para este Poema 
na voz de Renato Phaelante e música incidental de Luiz Guimarães



I


O Frevo é festa, é luz, a voz do povo,
No fogo, ardem pernas, mil sombrinhas,
Passista voa sem perder a linha
E é tão sublime o seu feroz corcovo
Que a gente anseia ele arder de novo…
Nos ares, rasgam corpos, qual cavalos
Que lutam contra a gana de domá-los
E mais parece a vida estar parada
Perante audaz destreza e fé passada
Por tal gingante mostra de regalo…


II

No início foi vilão, esse menino,
Seguia a contramão, o capoeira,
Quicés, rabos-de-arraia e peixeiras,
Um farto repertório libertino,
Que da contravenção fez mal ensino…
Depois dessa maléfica etapa,
O tempo arrefeceu a quente chapa,
Em vez de violência, viu-se arte,
O mapa transformou-se em grande parte
E hoje flui a dança sem zurrapa…



III

Brotaram girassóis nas avenidas,
Sacis, locomotivas e rojões,
Mil saltos atiçando as sensações,
Porvir da resistência renascida…
Na cor pernambucana esculpida,
O frevo, enfurecida dança rara,
Sentiu arder a chama que o brotara…
Tesouras laminosas, dobradiças,
Ao vê-las, qualquer alma se enfeitiça,
Qualquer atrevimento se escancara…


IV

A ordem é incentivar as mentes
Das multidões a se afoitar no passo,
Parece mais um furacão no espaço
Ou rebuliço de um vulcão fervente…
Das profundezas da heróica gente
Coreografias, mandigueiras febres,
Diverso espasmo, ansiosa lebre,
Leis do improviso, bafejar de touros,
Tudo isso ergue um secular tesouro,
Rogo jamais que seu cristal se quebre!


V

Grande frevo, um símbolo de luta,
Resistência que o sol forjou nas vidas
Contra elites, a prima investida,
Contra a moda, em riste, a batuta…
Vai vencendo agressões e força bruta,
Levantando um castelo cultural,
Impagável troféu descomunal,
De expressão popular e erudita,
Tradição, modernismo e a bendita
Transcendência voraz do carnaval…


VI

O cabo, a haste, a vassoura, o farol,
Viris imagens do frevo-de-rua,
Imenso rol das façanhas mais cruas
Do militar, da espada e do Sol,
Onde é império, opulento paiol…
Frevo-coqueiro, de notas agudas,
Frevo-de-abafo, contendas raçudas,
E o ventania por onde atua
Semicolcheia que o tempo recua
Pelos metais, na estridência desnuda…


VII

Das saudades, da flor, lira, violões,
Feminina imagem traz os blocos,
No coral, as pastoras são o foco
Propagando solfejos e emoções…
A seguir seus flabelos e brasões,
Pau-e-corda desenha o bailar,
E do nobre poeta, a recriar
Todas glórias eternas do amor,
O cordão invisível faz furor
E evolui na magia do luar…


VIII

Mais um terceiro, o frevo-canção:
Na força herdeira do frevo-de-rua,
Na voz, o cheiro dos blocos da lua,
Traz tão festeiro cantar ao salão…
Vem, a guitarra, ganhar atenção,
Trios elétricos tocam vorazes,
Os seus intérpretes chamam os azes
Para pularem na louca avenida,
Por toda a parte, a geral incontida,
Grita feliz as canções contumazes…


IX

Segue herói, nosso frevo pela estrada
Vai no oito-e-oitenta da emoção
Por um lado essa brasa da paixão,
Pelo outro, essa paz da madrugada…
Ó vilão mais sagrado da emboscada!
Militar mais preciso da folia!
Teu lirismo saúda a noite e o dia,
Tua história ensina a ser guerreiro
Grande frevo, devasso e brejeiro,
Nobre voz que do peito traz poesia…


X

Seguirás forte, nordestino canto,
Nunca fraquejes, meu melhor amigo,
Pois se morreres, morrerei contigo,
Parte-se a lira e todo o seu encanto…
Quero comigo o ardor do manto,
Essa esperança a desfilar renhida,
A resistência que da alma é lida,
Esse clamor, ó meu fiel lanceiro,
Da fé medida, o relutar certeiro,
Nas ruas, blocos e canções da vida…



Poema: Décima do Frevo
Recitado no CD "10 Anos de Poesia"  (2010)
Voz de: Renato Phaelante
Músicas incidentais: frevos-de-rua de  Luiz Guimarães

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Academia de Literatura e Artes

Gostaria de agradecer aos diretores e organizadores da AILA (Academia de Literatura e Artes) que me convidaram para ser membro da mesma. A cerimônia de posse ocorreu no dia 25 de setembro de 2014 (Quinta-feira), no auditório da Assembleia Legislativa de Pernambuco (ALEPE). Como eu estava na Alemanha, o meu pai foi me representar, recebendo o diploma e a carteira de membro. A minha família esteve presente. Obrigado a todos os presentes neste evento.



Outros Contatos

Veja Links para matérias de João Araújo:

- Um itinerário crítico para o imaginário de Mafalda Veiga:
Decomposição de um cancioneiro através da imaginação da matéria
in Germina - Revista de Literatura e Arte. (link para o artigo)