terça-feira, 7 de outubro de 2014

Ensaio sobre a Senhora H.

Ensaio sobre a Senhora H.
(João Araújo)

…então a acusada levantou-se calmamente, caminhou até o banco dos réus e sentou-se na poltrona larga do Tribunal do Júri... Quebrou todo aquele silêncio profundo ao iniciar o seu discurso:

Hoje, presencio um fluir diário nos laços institucionais, nas repartições públicas ou privadas, nos departamentos universitários, entre coordenadores e secretários, entre patrões e empregados, entre superiores e subordinados. Meus caros senhores, é um fluir que faz o mundo ser o que é. Que faz as sociedades serem o que são. Poderia contar-lhes todas, uma a uma, cada uma dessas pequenas aventuras que constituem o todo das ações humanas, cada um dos detalhes de tais acontecimentos de espertezas e cavilações decorridos nos cinco continentes do globo. Mas prefiro restringir-me à transcrição de um breve itinerário sobre as minhas visitações em paragens gerais, o que já não é pouco, pois os fatos remontam os contos do arco da velha. Tomais, portanto, meus caros senhores, tais breves transcrições como um alerta, em formato de petição minha, e que agora vos encaminho.

O meu relato começa num tempo não muito distante. Inicio com a minha chegada e presença em terras americanas, através do impulso dos sangues ibéricos, das mentes sedentas dos exploradores espanhóis, dos olhos vermelhos dos navegantes portugueses. Por um lado, a gana pela conquista fez todos esses aventureiros dissimularem deuses atrozes para os nativos das falsas Índias. Por outro, as suas saudades os impeliu a vislumbrarem um retorno às terras de origem, com relatos aventurosos e superlativados sobre as suas lutas contra monstros e chagas medonhas imaginadas. Com a minha cultura branca, atrofiei, assim, culturas indígenas. Impus religiões estranhas nas mentes puras de povos colonizados. E muito usei dos ardilosos recursos, fazendo parir, ali, diante dos seus olhos, novos deuses, novos pecados, novas culpas, novas condenações.

Fiz homens brancos percorrerem planícies largas, subirem montes e adentrarem em florestas densas de terras virgens. Eram lanceiros mentirosos, fariseus e escribas fingidos, capitães trapaceiros, falsos heróis, padres e pastores encarapuçados. Alastraram-se pelos espaços verdes, esconderam-se provisoriamente nas cavernas, montaram tendas nas margens dos rios. Maquinavam, eles, os seus desejos manhosos, manobravam etnias selvagens, montavam ratoeiras e ciladas pelos caminhos das matas, condenavam e combatiam grupos idênticos aos seus. Começavam a erguer povoados, aldeias e vilas. Em todos os casos, eu sempre estive lá, meus caros senhores, saltitando entre as evasões e as raposices, entre as lambanças e as distrações.

Nas Américas recém-nascidas, minha saga encontrava outras moradas e fartura para nutrir o meu organismo industrioso, mas ainda um tanto disperso. Aos poucos, e lentamente, fiz brotar pelos quatro cantos, os choros comprados das carpideiras, os amores suados das prostitutas, os causos jocosos dos mentirosos. Instalei-me nas bodegas e mercearias. Negociei sacas de farinha e xerém, barganhei peças de carne-seca, vassouras, enxadas, foices, cachos de banana, potes de doce de jaca, quilos de prego, metros de taipa, centenas de telhas, milhares de tijolos. E era nas prateleiras mais internas e escondidas, onde fazia minar o meu leite de insídia com regozijo. Nelas, vendia falsas poções mágicas, promovia estimulantes para a alma, despachava vitaminas para os espíritos fracos.

Com a invenção dos bares, meus caros senhores, atravessei as horas sentada, bebendo e alugando arapucas para fraudar velhinhas solteiras e jovens viúvas. Passava muitos embrulhos por debaixo das mesas. Traficava incontáveis produtos proibidos pelos homens da lei. Comercializava objetos tirados dos donos. Saía pelas ruas espalhando armadilhas e ensinando manigâncias para os moços caírem feito patos. Naquelas empreitadas, duelei bastante com reverendos, medi força com detetives, subornei delegados. Dei voz intrigosa a professores, pais e alunos. Formei muitas turmas de estelionatários, golpistas e descuidistas especializados nos contos-do-vigário. Fiz crescer mais minha clã de cambalachos, artimanhas, futricos, deslisuras e embromações. 

Nas procissões, acompanhei pensamentos profanos de beatas. Toquei desejos carnais de debutantes que apertavam crucifixos; beijei mentes perversas de homens que levavam andores; ardi nas cabeças de coroinhas concentrados em imagens santas; incitei traições de esposas e maridos, acabei com noivados direitos, construí casamentos de embuste.

Depois de plantados os invisíveis limites citadinos, não resisti e contrabandeei produtos eletrônicos, ampolas de uísque, perfumes falsificados, pedrarias e maquiagens de todas as marcas. A minha rede se alargava e inchava com as engrenagens dos dias, se empanturrando dos gordurosos conluios e lábias enfiados goela abaixo pelas bocas dos vigilantes e sentinelas, das polícias de fronteira, dos órgãos de controle dos fluxos humanos.

Mas devo dizer, meus caros senhores, que com o surgimento das instituições públicas, sorri, eu, satisfeita e eufórica. Os meus negócios encontrariam lá, a ascensão mais pujante. Começariam a se multiplicar os alçapões, as pantomimas e as patifarias pelos esgotos da cidade. Uma proliferação de engodos, maracutaias e defraudações. Quanto mais as populações cresciam, mais eu crescia junto. Mais ganhava força, mais inchava. Condenei milhares de inocentes, fracos e ingênuos. Libertei milhões de crápulas, poderosos e gatunos. Comprei médicos, enfermeiras e anestesistas. Trambiquei com engenheiros, diretores de multinacionais, lojistas e donos de empreiteiras.

Também investi no ramo da estética: renovei a cosmética milenar, através das operações plásticas e do “lifting”. Criei as injeções de “botox”, os sacos de silicone e até as unhas, os cílios, os seios e os glúteos postiços.

Na Linguística, fui responsável por inspirar e cunhar termos e expressões como “lavagem de dinheiro”, “mensalão”, “laranja”, “testa de ferro”, “privataria”, “colarinho branco”, “propina”, “cacau”, “cascalho” dentre tantas outras. Mas uma das minhas maiores façanhas foi a invenção da palavra “capital”. É notório que hoje manipulo as bolsas de valores, grande parte dos seus agentes financeiros e especuladores, as ações e os acionistas. Não poderia ser diferente, pois quem projetou o escambo, parte das notas verdadeiras e das falsas, dos câmbios oscilantes, dos tesouros diversos, fui eu. Materializei os ideais adulterados e artificiosos através das moedas para facilitar o meu trabalho. Para além da concretude que a palavra “dinheiro” representou no início, a palavra “capital” permitiu-me uma brecha para investir no plano do abstrato e universal. Em torno dela, pude fazer girar uma constelação de transações, intrujices, truques, tretas e manivérsias. Eis que com a palavra “capital” pude sustentar um universo de ações atrozes. Adquiri força para mover montanhas, levantar metrópoles, financiar guerras incontáveis, promover revoluções impossíveis, fomentar violentos golpes de Estado. Resumi gentes a números; culturas a estatísticas; povos a gráficos. Simplifiquei a minha luta: afixei índices financeiros pela “internet”, fiz “bits” da memória de computadores valerem bilhões, transformei números vindos das telas de cristal líquido em fortunas, cobrei juros impagáveis, multipliquei, assim, o meu império. Converti o mundo numa enorme e feroz massa heterogênea em convulsão apavorante. Aquela pequenina engrenagem que outrora eu fora, virara uma imensa maquinaria a bufar um caos infernal cujo verdadeiro controle só eu possuía o segredo. Fiz pulsar nele o meu sangue manhoso; contaminei tudo com as minhas essências feitas de malícia e logro. Superei em muito o poder dos reinados todos que já existiram. Umas tantas monarquias ajudei a levantar e a derrubar. Muitas repúblicas facilitei a expansão. Nunca cresci concentrada, sempre favoreci o meu alargamento, a minha difusão. Eu espalho-me por todos os lados.

Hoje, eu soo nas respostas trêmulas perante os processos criminais, fiscais, laborais; perante as ações tributárias, civis, comerciais; as lides empresariais, urbanísticas e previdenciárias. Todas elas. Transcrevo as decisões mal tramadas através das mentes dos juízes comprados. Calo a voz cínica dos presidentes, diante dos ministros corruptos. Escondo dólares nos bolsos dos paletós, nas gavetas oportunas, nos porta-luvas dos carros, nas “pochettes” ligeiras dos “motoboys”, nas cuecas imundas dos assessores políticos, em todas as suas roupas de baixo. Sou eu quem comanda a maioria dos empréstimos titânicos, quem fecha os olhos da lei. Há muito que já escrevo várias dessas próprias leis. Exilei diversos poetas e compositores, artistas e pensadores. Dei poltrona confortável a generais cinco estrelas, a bajuladores, a influentes inconformados.

Estou nas ações embaçadas dos que truncaram os caminhos possíveis dos seus iguais em defesa dos ciúmes apaixonados, das mãos e olhares possessivos, das paternidades doentias. Estou no riso de empáfia das solitárias e enérgicas senhoras, cujas astúcias fizeram-nas sempre se sentir a si próprias como mentes à frente do seu tempo. Encontro-me nos atos silenciosos, nos ouvidos de mercadores que os influentes fazem, ao negarem oportunidades aos necessitados. Moro no repentino silêncio que os velhacos e grandes jogadores fazem nas rodas dos blefes e noitadas de burlarias e fuxicos engenhosos. Sou indiferente quando os motins do mundo servem cafezinhos para os meus semelhantes e ardo em revolta se, da bonança vigente, não extraio lucro algum. Premeditadamente, adio as respostas dos “e-mails”, não retorno ou atendo às chamadas telefônicas; prometo uma ligação, mas não ligo; insinuo convidar as pessoas para a minha casa, mas não convido; dou tapinhas nas costas, distribuo sorrisos de porcelana e prendas planejadas pragmaticamente; sou eu quem diz que não está, quem mata um familiar uma, duas ou três vezes, ao dar uma desculpa; sou eu a grande arquiteta das desculpas todas.

Estou nos escritos de Maquiavel, nos estudos de Freud, nos ensaios de Montaigne. Dante dedicou-me a maior parte do seu monumento literário. Eu sou a realidade mais profunda que sustenta o mundo. Aquela senhora que ministra uma legião de alunos e dita-lhes as teses que lhe apraz. Eu determino-lhes quem são os maus e os bons homens, profetas e ídolos, conforme os meus interesses. Sorrio delicadamente para ganhar adeptos. Afasto uns tantos outros que comigo já não cantam.

Ando por aí à solta e lépida como nunca. A cada segundo, por toda a parte assobio com deboche. Encontro-me a passear nos carros conversíveis, a beber e a gargalhar em ilhas privadas, nos países, nos continentes. Desloco-me em helicópteros, jatinhos, jumbos, lanchas e iates. Mas também sigo a pé, de bicicleta, nos velhos automóveis. Surfo nas deliciosas vagas das crises mundiais. Nos lares do mundo, emerjo das sutilezas vibratórias das mentes das crianças. Herdei o registro do beijo que Judas Iscariotes eternizou. As minhas origens apontam para desde antes de Caim chegar a Nod, levando consigo o destino nômade dos homens. Detenho o gérmem mais antigo da evolução dos hominídeos, dos gorilas, dos primatas, dos bichos. Sou irmã das tentações e mulher de todos os interesses. Eu sou um vírus, uma essência venenosa, uma infecção moral. Cresço com as ações dos homens. Incrusto-me nas suas mentes. Contudo, nem sempre o meu nome é mencionado com clareza.

Uma diminuta parte da minha saga é esta que agora vos relatei, meus caros senhores. Peço-vos que a tomem como uma petição. Ganhei poder e hoje tenho tudo isso enredado em minha teia abstrata, sob o olhar baixo de toda essa platéia de impostores no esculpir meticuloso e filigranado das tergiversações. Venho prestar esse humilde depoimento, diante do cenário de descaso pelo qual a minha e a vossa vida correm o risco de passar. Peço que a vossa atenção cuidada debruce “bom juízo” por sobre tal testemunho vos confiado. Se eu tombar, tomba o mundo! Este mundo... Racham-se as suas fundações... Levo junto tudo isso o que erguemos. E, um dia, a existência humana poderá até tentar esbravejar e urrar sem mim, num suspiro de ressurreição repensada, mas será algo diferente... Qual dos senhores se atreverá a dar o primeiro passo?

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Diversidade, esperança e oportunidade

Diversidade, esperança e oportunidade

A metáfora de que o país é uma nau que prossegue por entre bonanças e tempestades não é tão boa quanto alguns pensavam. O capitão assumiria a triste imagem de um ditador e nós, os marujos, tingiríamos o nosso rosto de marionete com o doce brilho da cegueira. Com a cabeça focada nas manutenções rotineiras da embarcação, às vezes nos esqueceríamos do rumo a se tomar e, pior ainda, estaríamos aprisionados na rota imposta pelo “capitão”. Portanto, a metáfora não serve e, se quisermos ainda insistir na alegoria, teríamos que repensá-la melhor.

Não precisamos de muita teoria para percebermos que se torna muito mais cinza um mundo sem diversidade. Se consumirmos apenas um tipo de nutriente, a dieta fica demasiado empobrecida e o organismo sucumbe. No plano político atual, a nuvem cinza que paira sobre os nossos lares é ainda mais escura. Hoje parece que aceitamos muito facilmente as soluções paliativas que os governantes nos oferecem. Olhamos para o lado e não escutamos mais o nosso grito refletido na voz de uma oposição vigorosa. Defende-se muito o discurso democrático, mas se utiliza deste lema para se distribuir cargos, minar a crítica construtiva de qualquer possível oposição e fortalecer cada vez mais um único tipo de discurso e conduta política.

No Brasil de hoje há uma inflação de instituições públicas sustentadas mensalmente por nós. Não vemos o retorno esperado por tudo o que pagamos. São 39 ministérios e órgãos federais que, na prática, servem para solidificar alianças políticas de forma a se manter no poder. Já perdemos nessas contas: paga-se muito e o retorno é pequeno. Oferecem-nos sempre incontáveis soluções paliativas. Os governantes fazem infundados acordos com outros países e distribuem ajudas financeiras com o nosso dinheiro público. Do lado de cá, esse mesmo nosso dinheiro público é utilizado para distribuir bolsas mensais para a população de baixa renda, sem critérios eficazes de fiscalização, melhoria real da qualidade de vida das pessoas e perspectivas de um futuro melhor. 

Oferecem-nos festivais de circo. O problema não é, por exemplo, termos sediado mais uma Copa do Mundo, mas sim, termos assistido o governo federal prontamente correr contra o tempo para dar cabo de obras bilionárias exigidas pelos organizadores do evento. Enquanto isso, ainda assistimos diariamente festivais de horror em nossos hospitais devido à falta de condições básicas. O problema não é ter perdido o Campeonato Mundial, mas sim perder diariamente em qualidade de saúde, educação, transporte, segurança, infra-estrutura e gestão pública. Qual é o nosso foco afinal? Quais são as nossas prioridades? A seleção brasileira perdeu novamente em casa. Menos mal. Pior é ver o país continuar sendo derrotado inúmeras vezes no plano político, social e econômico. É inegável que o país precisa de mudanças urgentes.

Temos que buscar força e fé para lutarmos pela nossa própria casa. O pensamento sadio e crítico deve ser restabelecido, devemos valorizar a discussão política. Devemos nos interessar e integrar mais neste processo de melhora do país, nas possibilidades de mudança, de transformação, de modernização. Não podemos deixar que quaisquer governantes usem desse poder que nós próprios lhes confiamos para calar este valor da cidadania. Temos que pensar em melhores formas de controle das nossas instituições, para não permitir a supremacia de apenas um tipo de conduta, discurso ou partido político. Ao fazermos isso, estaremos fortalecendo a diversidade dos nossos valores e espírito crítico, para termos condições de lutar por um país melhor. É neste contexto, aqui delineado, que diversidade, esperança e oportunidade se misturam e se sobrepõem.

João Araújo
artigo publicado no Diário de Pernambuco
Quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Décima Esdrúxula

Décima Esdrúxula
João Araújo

put your headphone and enjoy the music
(coloque o seu fone de ouvido e curta a música)




I
Nem sempre o chão se simplifica oxítono…
A vida é feita de milhões de máculas,
Bizarras pontes, espreitantes dráculas,
Que nos circundam a cantar em trítonos
No timbre estranho de um algoz barítono…
Há inimigos a emergir dos ângulos
E é difícil de encontrar retângulos
Que nos ajudem a limar as pápulas…
Infelizmente, em toda esquina há crápulas
A nos cortar com abissais triângulos…

II 
Bizarra vida corre tão frenética
Com seus canhões armados em girândolas,
Que nós, bonecos, damos de farândolas,
Buscando algum espaço para a ética…
Preciso é manter a fé atlética,
Não basta só querer o que é mais lógico,
A vida é mais do que o nó biológico
E deve estar a mente alerta ao gênero,
Além dos modos mil do mundo vênero,
Também do que transcende ao dialógico…

III
Nas instituições, ações pestíferas
De gente que desusa o poder público,
Há muito não se vê senso repúblico,
Há muito impera um som de voz sonífera…
Na trágica essência venenífera,
Vilões contabilizam os seus tráficos,
Acumulam valores, fazem gráficos,
Acordos indecentes e lucífugos,
É preciso inventar um bom vermífugo
E salvar os propósitos seráficos… 

IV
Altos bandidos deitam olhos cúpidos
Na confiança dada pelas vítimas,
Roubam cofres, baús, contas, legítimas,
E deixam quase todos obstúpidos …
Suas operações, atos estúpidos,
Começam no eleitor, em gesto clássico,
Ao repetir seu erro mais jurássico
De votar novamente em homens cínicos,
Sem cuidados de olhar com olhos clínicos,
Sem cautela ao pisar num vão talássico…

V
Por trás de todo esse ataque e pânico,
Imenso plano estruturado e tácito,
Contra o qual não se escrevem plácitos
E donde erguem-se portões titânicos…
Tão facilmente, o nosso porte anânico
É dominado por seus mil tentáculos
São oceânicos os seus mendáculos,
Intransponíveis atitudes cálidas
Que vão tornando a esperança inválida
Em aguardar pelos sinais do oráculo…

VI
A ficar tanto mais inerme e afônico
É o crime irônico e dramático,
Projetado nos lucros esquemáticos,
De deixar todo o ar sujo e agônico
Poluído com muito gás carbônico…
Nos delitos cruéis do atmosférico,
Nossa mãe natureza, em tom colérico,
Modifica o seu ritmo silábico:
Os termômetros ficam todos rábicos,
E, nas matas, os gritos são histéricos…

VII
A Terra em súplica, ardente e tétrica 
Com todas essas ações energúmenas,
Quer preservar sua grandeza ecúmena,
Recuperar o equilíbrio, a métrica
E abrandar tal maldade elétrica…
Na vastidão das intenções estrambólicas 
Desmatações e queimadas diabólicas,
Fábricas matam os campos mais plácidos,
A bomba atômica, os químicos ácidos
Já deixam marcas de dores simbólicas…

VIII
E ao migrarmos do múltiplo caótico
Para o plano privado hipercrítico,
O espírito pobre e detrítico
Exaspera em defeitos assintóticos…
Contra o falso, não há antibióticos,
Contra a inveja, atitudes mais pirrônicas,
Numa árdua batalha antagônica,
Pois o mal, noite e dia, gera lândoas,
Que, atônitos, vamos expurgando-as
Ao sonharmos com horas mais harmônicas…

IX
Ainda há gente que achamos fantástica
Mas não é raro, que as passoas neuróticas
Passam nas ruas velozes, robóticas,
Com atenções fadigadas e plásticas…
Há relações que são só escolásticas,
Sem verdadeiro valor altruístico
Há inflações de interesses balísticos
Concretizando as razões mais ególatras
E ao dom civístico faltam idólatras
Com o positivo condão do humanístico

X
Infernal correria catalética,
Catastróficos tempos bisesdrúxulos…
Essas décimas são reféns do esdrúxulo,
E ao crepúsculo em formas apopléticas
Exorcisa com a força da fonética…
Que a deífica aurora sistemática
Deixe a hipócrita voz mais diplomática,
Seja próspero o mundo, mais poético,
Tenha mais condoimentos energéticos,
Vença o mal e as tristezas emblemáticas!

Outros Contatos

Veja Links para matérias de João Araújo:

- Um itinerário crítico para o imaginário de Mafalda Veiga:
Decomposição de um cancioneiro através da imaginação da matéria
in Germina - Revista de Literatura e Arte. (link para o artigo)