Talvez o seu sorriso puro de criança nunca se tenha deixado abalar. Ele o tinha como uma marca inconfundível. Esse jeito alegre que parece existir mais presentemente no povo nordestino brasileiro e que, às vezes, é até mal interpretado pelas pessoas. A semente de uma resistente alegria chama a atenção de muita gente e mesmo outros nordestinos se questionam sobre tal feição. Francisco Soares de Araújo era assim. Paraibano de Princesa Isabel, carregou consigo uma simplicidade ao sorrir, entre os altos e baixos que o destino lhe impôs. Poucos brasileiros conheceram a arte do menino Francisco de quem falamos. É uma pena. Parece que estamos vendo aquela criança bulinando na viola do pai, na aurora da vida, diante do espelho desnecessário, teimando por inverter o instrumento e tocá-lo pelo avesso. Teimando por inventar novas saídas, novos truques. Teimando por criar novos atalhos para o violão. Naquela brincadeira séria, nascia a semente inventiva de um virtuoso músico e compositor. Abria-se um caminho incomum de execução e criação para esse instrumento que já é tão difícil de se tocar pelos destros.
Essa inversão do violão o batizou de Canhoto da Paraíba. Mais tarde, veio se radicar em Recife. Dentre as suas aventuras, há a viagem que fez, ao fim da década de 1950, até o Rio de Janeiro, num jipe, junto com outros músicos. Em Jacarepaguá, conheceu Jacob do Bandolim e Radamés Gnatalli e também foi influência artística de novas gerações, a exemplo de Paulinho da Viola. E lá esteve o seu sorriso cativante, ao tocar de forma precisa e espantosa os seus choros com sotaque nordestino. A união entre a sua habilidade e o seu carisma virariam tema nas conversas entre aqueles músicos. E não só. Ao retornar ao Recife, sua simpatia e talento entre os colegas já era comum, o que lhe renderam parcerias em gravações musicais. Podemos citar como registros de sua produção, alguns LPs entre os quais “Único Amor”, “Canhoto a Mais de Mil”, “O Violão Brasileiro Tocado pelo Avesso” e “Pisando em Brasa”. Alguns desses frutos contaram com as participações valiosas de Rafael Rabello, Henrique Annes e Bozó, dentre outros.
Infelizmente, ao fim da década de 1990, Francisco Soares viria sofrer uma isquemia cerebral, paralisando o lado esquerdo do corpo e a trajetória de Canhoto da Paraíba. A partir desse acontecido, algumas vezes, vários artistas fizeram apresentações em sua homenagem, com o intuito de angariar fundos para auxiliar no seu tratamento. Foi bonito e único ver juntos Dino Sete Cordas, Paulinho da Viola, Época de Ouro, Pingo de Ouro, Bozó, Henrique Annes, Dalva Torres e Os Quatro Boêmios, Cláudio Almeida, Jeovah da Gaita, Conjunto Pernambucano de Choro, Nenéo Liberalquino e outros, mas desejaríamos que aqueles encontros inesquecíveis pudessem nunca ter tido o seu real motivo de realização. Sabemos que alguns admiradores anônimos também visitavam Canhoto em Paulista, onde residia. Mesmo com as claras dificuldades em que se encontrava, parecia que o menino Francisco ainda sorria, vez em quando. Ainda sonhava tocando pelo avesso o seu instrumento do coração. Francisco Soares, inesquecível músico para poucos, faleceu nesses últimos dias de abril de 2008. Adeus, Mestre, carismático Curinguinha, amigo Canhoto cordão... Talvez o seu sorriso puro de criança nunca se tenha deixado abalar...
publicado no Diário de Pernambuco