terça-feira, 19 de Agosto de 2008

O MESTRE QUE TOCAVA PELO AVESSO

Talvez o seu sorriso puro de criança nunca se tenha deixado abalar. Ele o tinha como uma marca inconfundível. Esse jeito alegre que parece existir mais presentemente no povo nordestino brasileiro e que, às vezes, é até mal interpretado pelas pessoas. A semente de uma resistente alegria chama a atenção de muita gente e mesmo outros nordestinos se questionam sobre tal feição. Francisco Soares de Araújo era assim. Paraibano de Princesa Isabel, carregou consigo uma simplicidade ao sorrir, entre os altos e baixos que o destino lhe impôs. Poucos brasileiros conheceram a arte do menino Francisco de quem falamos. É uma pena. Parece que estamos vendo aquela criança bulinando na viola do pai, na aurora da vida, diante do espelho desnecessário, teimando por inverter o instrumento e tocá-lo pelo avesso. Teimando por inventar novas saídas, novos truques. Teimando por criar novos atalhos para o violão. Naquela brincadeira séria, nascia a semente inventiva de um virtuoso músico e compositor. Abria-se um caminho incomum de execução e criação para esse instrumento que já é tão difícil de se tocar pelos destros.

Essa inversão do violão o batizou de Canhoto da Paraíba. Mais tarde, veio se radicar em Recife. Dentre as suas aventuras, há a viagem que fez, ao fim da década de 1950, até o Rio de Janeiro, num jipe, junto com outros músicos. Em Jacarepaguá, conheceu Jacob do Bandolim e Radamés Gnatalli e também foi influência artística de novas gerações, a exemplo de Paulinho da Viola. E lá esteve o seu sorriso cativante, ao tocar de forma precisa e espantosa os seus choros com sotaque nordestino. A união entre a sua habilidade e o seu carisma virariam tema nas conversas entre aqueles músicos. E não só. Ao retornar ao Recife, sua simpatia e talento entre os colegas já era comum, o que lhe renderam parcerias em gravações musicais. Podemos citar como registros de sua produção, alguns LPs entre os quais “Único Amor”, “Canhoto a Mais de Mil”, “O Violão Brasileiro Tocado pelo Avesso” e “Pisando em Brasa”. Alguns desses frutos contaram com as participações valiosas de Rafael Rabello, Henrique Annes e Bozó, dentre outros.

Infelizmente, ao fim da década de 1990, Francisco Soares viria sofrer uma isquemia cerebral, paralisando o lado esquerdo do corpo e a trajetória de Canhoto da Paraíba. A partir desse acontecido, algumas vezes, vários artistas fizeram apresentações em sua homenagem, com o intuito de angariar fundos para auxiliar no seu tratamento. Foi bonito e único ver juntos Dino Sete Cordas, Paulinho da Viola, Época de Ouro, Pingo de Ouro, Bozó, Henrique Annes, Dalva Torres e Os Quatro Boêmios, Cláudio Almeida, Jeovah da Gaita, Conjunto Pernambucano de Choro, Nenéo Liberalquino e outros, mas desejaríamos que aqueles encontros inesquecíveis pudessem nunca ter tido o seu real motivo de realização. Sabemos que alguns admiradores anônimos também visitavam Canhoto em Paulista, onde residia. Mesmo com as claras dificuldades em que se encontrava, parecia que o menino Francisco ainda sorria, vez em quando. Ainda sonhava tocando pelo avesso o seu instrumento do coração. Francisco Soares, inesquecível músico para poucos, faleceu nesses últimos dias de abril de 2008. Adeus, Mestre, carismático Curinguinha, amigo Canhoto cordão... Talvez o seu sorriso puro de criança nunca se tenha deixado abalar...
publicado no Diário de Pernambuco

segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

LIRISMO E FRATERNIDADE: A EVOLUÇÃO DOS BLOCOS*

É sabido que o diálogo antagônico sempre esteve presente no carnaval, a exemplo das disputas entre os Clubes no início do século XX que, ao se cruzarem na virada das esquinas recifenses, travavam verdadeiras batalhas, onde o vencedor, resumidamente, seria aquele que conseguisse “furar” o surdo do oponente, roubando-lhe, assim, a força da sua marcação. Porém, queremos nos deter, aqui, no lado fraterno que os Blocos Líricos vêm hoje trabalhando de uma forma muito espontânea. Esse sentimento de preservação do termo “amizade” passeia por essas agremiações em vários níveis. Dentre as várias temáticas dos frevo-de-bloco, das quais podemos ter uma idéia geral analítica através do livro “Panorama de Folião” de Júlio Vilanova, está aquela que chamaremos de temática de louvor, na qual o compositor, de forma muito poética, evoca as agremiações queridas. Foi com essas qualidades que o compositor Bia Assunção levou o 1º Lugar no gênero frevo-de-bloco do Concurso de Música Carnavalesca Pernambucana 2006/2007 com a composição “Inocente” cujos versos convidam: “vem minha gente, vem ver o Esperança exaltar o Inocente”.
Também há uma cordialidade e respeito que vagueiam nas festas produzidas por algumas das agremiações atuais. Uma passagem exemplar foi a do Bloco Pierrot de São José que, ao comemorar os seus 30 anos de lirismo neste ano, convidou os Blocos Batutas de São José, Cordas e Retalhos e Um Bloco em Poesia para os homenagear e festejarem conjuntamente esta data tão importante. Esse carinho também se manifesta quando uma agremiação resolve homenagear uma personalidade da nossa cultura em seus acertos-de-marca. Citemos casos dessas celebrações honrosas com Um Bloco em Poesia que, desde a sua fundação, recebe anualmente uma personalidade e entrega-lhe o laurel no palco do Marco Zero, sempre na segunda-feira de Carnaval. Foi assim que esta agremiação abraçou, naquele palco, Ariano Suassuna (Literatura); Reinaldo Oliveira, Aldemar Paiva e Leda Alves (Teatro); Miriam Leite, Hugo Martins, Renato Phaelante e Ivan Ferraz (Rádio) e António Carlos Nóbrega (Cavalo Marinho). A festa de 2008 promete o mesmo esplendor e encanto com o enaltecimento ao talento indiscutível do compositor e poeta Getúlio Cavalcanti, que será homenageado em vários momentos.
Outro nível dessa expressão de fraternidade entre os Blocos Líricos decorre das suas uniões para concretizarem um mesmo projeto. Desta feita, Um Bloco em Poesia e o Cordas e Retalhos produziram uma série de seis edições de “O FLABELO - Jornal Informativo dos Blocos Líricos de Pernambuco”, divulgando informações valiosas sobre a história e os eventos que ocorriam no meio. Citamos também a nossa publicação do livro “A Commedia dell´Arte no Lirismo do Carnaval de Pernambuco”, onde tentamos criar uma representação bibliográfica da coletividade comum aos Blocos, ao convidarmos dez personalidades para abrirem os capítulos do referido volume.
É assim que os Blocos Líricos vão preservando este valor imprescindível para a humanidade, o que não poderia ser diferente já que, como é notório, as suas origens partiram do núcleo familiar. Parece, desta forma, que os Blocos têm cumprido o que bem disse o boêmio Pedro Dueire, ao afirmar que no carnaval “não se consegue individualizar as pessoas ou as coisas, a homogeneidade faz de cada parte um todo e, pelo menos naqueles instantes, o reinado da alegria impera com toda majestade”.

* Artigo publicado no Diário de Pernambuco de 22 de janeiro de 2008,
no âmbito das comemorações carnavalescas deste ano.
Recife/Pernambuco/Brasil.

Os Antigos e Eternos Carnavais

A letra a seguir foi composta para o Carnaval de 2008 da Trupe Lírico Musical Um Bloco em Poesia, como parte do projeto que este Bloco Lírico tem de homenagear, anualmente, uma personalidade da cultura pernambucana, bem como utilizar-se de uma temática pré-definida para compor suas fantasias e adereços. Pode se perceber facilmente a simplicidade e o pendor da letra à nostalgia, como tentativa de reproduzir o estilo puro e inocente das antigas marchinhas-de-carnaval, já que a temática a que se refere dá título à música. Na sequência de sua composição, esta letra foi musicada por Dalva Torres que é cantora, arranjadora e diretora musical da supracitada agremiação e a sua elaboração foi realizada exclusivamente para homenagear o cantor, compositor e poeta Getúlio Cavalcanti que por mais de 30 Carnavais abrilhanta as passarelas e clubes diversos pernambucanos com suas composições vitoriosas, além de contribuir significativamente para o vasto cancioneiro brasileiro.
A Magia dos Eternos Carnavais
Tema Um Bloco em Poesia 2008
* Homenageado: Getúlio Cavalcanti *


Letra: João Araújo
Música: Dalva Torres


1ª Parte
Um Bloco em Poesia
Me fez viver a magia
Dos eternos carnavais

Herdei a fantasia
De pierrot, Colombina,
Arlequim e outras mais


2ª Parte
Fiz chover confetes e serpentinas,
Iluminei de purpurina o salão,
Andei de corso e até dei de buzina
Um adeusinho para alguém na multidão

Dancei marchinhas de piano, fiz gracejo,
Joguei jetons, banho charmoso de florais,
E nessa paz amante, eu tive um desejo:
- Getúlio cante os frevos imortais!

sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

PANDEIRO – O INSTRUMENTO QUE ACOMPANHA AS BATIDAS DO CORAÇÃO*

Meu pandeiro brasileiro... Olhando a sua árvore genealógica, observo que esse pequenino instrumento, hoje um dos grandes símbolos da cultura popular brasileira, é da família dos membranófonos e referências remotas suas podem ser encontradas já nas escrituras sagradas (I Samuel, 18:6). Derivado do tambor, o pandeiro persegue o homem ao longo da sua odisséia de utilização das habilidades manuais, essa faculdade libertadora que, sob o comando do cérebro, ajudou-nos a modelar o mundo peculiar ao nosso redor. A percussão acompanha o homem, das festividades sagradas às profanas, em sinais de luto ou de júbilo, desde os povos mais antigos como os fenícios e egípcios.

Também temos o adulfe como integrante desta família, espécie de pandeiro quadrado, com membrana bilateral, geralmente adornado com fitas e sem platinelas (aquelas pequenas placas cromadas ou niqueladas de latão ou bronze que produzem o som metálico do instrumento). A partir da Idade Média, na Europa, adulfes, pandeiretas e pandeirolas difundiram-se através dos toques dos artistas ambulantes, sendo utilizados em festas folclóricas pela Itália, Espanha e Portugal, até darem entrada no ambiente da Côrte e integrarem-se às orquestras.

A migração portuguesa para o Brasil traria consigo a tradição das procissões, pastoris e, consequentemente, os primeiros registros de utilização do pandeiro em meados do século XVI, em celebrações de Corpus Christi. Assim, instala-se o pandeiro que, juntamente com as manifestações africanas, foi sendo utilizado e modificado até ganhar identidade nacional com a MPB e uma forma muito especial de execução. Hoje, o leque de ritmos que o instrumento abarca é imenso, tendo-se fixado como referência desde o samba, o choro e o frevo, até ritmos menos convencionais como o funk.

No Nordeste nasceu um dos maiores ritmistas, o paraibano Jackson do Pandeiro, que se radicou em Pernambuco e fez nome com suas levadas, toques e batuques no forró. Cada instrumentista tem os seus truques, mandingas e façanhas singulares de expressão manual, que dão o molho rítmico e contagiante necessários para a música. Pondo-se à parte a fabricação em série, igualmente especial é a forma de fabrico artesanal do instrumento: cada artesão com suas técnicas de tratar a madeira, parafusá-la, envernizá-la, além da escolha do couro de cabra para se extrair o desejável som grave veludoso. Nesta linha de manufatura meticulosa, podemos citar os nomes de Aluízio de Fortaleza, Lanka de Campina Grande e Chico Nunes do Recife.

E ao aportarmos na capital pernambucana, podemos finalizar este texto, destacando alguns pandeiristas que se dedicaram no desvendar dos segredos do pandeiro, ainda que isso nos custe a injustiça de omissão de nomes importantes. Entre vários deles, encontramos desenvoltura e destaque, por exemplo, nos percussionistas Lula do Pandeiro, Xaruto, Walmir Chagas (ator), Mamão, George, Gilberto Campello (do grupo Sa grama) e Tadeu dos Santos (da Orquestra Retratos do Nordeste). Aqui fica a nossa homenagem singela, “in memoriam”, a quatro grandes referências em nosso Estado, na arte do toque do pandeiro e para os quais este texto é dedicado: os mestres Maciel, Galego do Pandeiro, Cosme e Aluízio do Pandeiro.


João Araújo é compositor, pandeirista e aluno do Mestrado
em Criações Literárias Contemporâneas
da Universidade de Évora, Portugal

*Artigo publicado no DIÁRIO DE PERNAMBUCO de 26 de setembro de 2007

sexta-feira, 23 de Novembro de 2007

Pensamento - IV

...eu queria muito obter as leis de tudo,
uma explicação bem arrumada para as coisas,
as variáveis ocultas do cosmos e dos homens...
quando me expresso nesses códigos,
ao mesmo tempo em que me alivio
e limpo por dentro,
temporariamente,
sujo de batom vermelho
as minhas mãos e os objectos...
eu não consigo ver as coisas e os homens
sem essa mancha minha do sangue
que me nutriu e nasceu...
aqui, eu sou uma espécie de rei midas...
eu revisto as coisas
e as seco e as endureço
com uma crosta calcária
que eu próprio crio
e não consigo
mais nunca quebrar...

domingo, 18 de Novembro de 2007

Ciência e Arte: uma mistura criativa*

Ciência e Arte, separadamente, são campos do conhecimento onde sempre se pôde testemunhar os frutos mais surpreendentes colhidos da criatividade humana. Separadamente? Será que é mesmo assim? Nem sempre... Pesquisas atuais(1) na área da Psicologia da Criatividade têm indicado que a polimatia é uma característica importante nas pessoas bem sucedidas nas pesquisas e produções tanto artísticas, quanto científicas.

Olhemos mais de perto esta palavra pouco usual. Polimatia vem de uma composição do grego polýs, muito, + mathein, aprender. Assim, podemos compreendê-la em termos de uma pessoa com instrução e cultura extensa e variada. Segundo um dos inventores da Mecânica Quântica, o físico Max Plank, que também tocava piano, o cientista pioneiro deve ter uma [...] imaginação artisticamente criativa(2).

Os estudos em que nos baseamos têm sido realizados por Bernstein que, dentre as várias linhas de análise, sugere a observação das publicações dos membros da National Academy of Sciences (USA). Os resultados revelaram que aqueles cientistas que estariam mais envolvidos com hobbies artísticos, tinham probabilidade maior de alcançar eminência na Ciência e estavam no topo das citações.

Mas não precisamos apenas avaliar dados recentes da Psicologia para verificarmos a importância desta união. Se voltarmos o nosso olhar para a História, encontramos provas de que a polimatia rendeu bons frutos para a humanidade, a exemplo do longo e rico período renascentista.
Os maiores mestres daquele tempo de redescoberta e utilização de virtudes, aptidões, saberes e culturas antigas, ainda hoje nos enchem de orgulho. Só para relembrar dois casos exemplares de erudição ampla que nos marcaram, temos Michelangelo di Ludovico, que foi pintor, escultor, poeta e arquiteto, e Leonardo da Vinci, que com as suas habilidades polímatas destacou-se no ramo da Pintura, Arquitetura, Engenharia, Ciência, Escultura, além de também ter aprendido Ótica, Perspectiva, Música e Botânica.
Assim, agora quando pensarmos em polimatia, recordamos os grandes mestres do passado e podemos sempre tentar buscar e reinvindicar por uma pedagogia atual que tenha suas bases sustentadas na variedade dos saberes.

*Artigo publicado no DIÁRIO DE PERNAMBUCO de 31 de agosto de 2007

(1) ROOT-BERNSTEIN, Robert and ROOT-BERNSTEIN, Michele. Artistic Scientists and Scientific Artists: The Link Between Polymathy and Creativity. In AAVV. [2004]. Creativity – From Potencial to Realization, pp. 127-151. Edited by Robert J. Sternberg, Elena L. Grigorenko and Jerone L. Singer. Washington: APA.

(2) Idem, ibidem, p. 134.

sexta-feira, 13 de Julho de 2007

Senhora das Águas (Dalva Torres e João Araújo)

Esta é a letra de um gênero musical muito particular do nordeste brasileiro: o caboclinho. O poema de João Araújo foi musicado pela cantora e arranjadora Dalva Torres. A parceria foi defendida pelo cantor Edy Carlos e rendeu o 3º Lugar do gênero, no Concurso de Música Carnavalesca da Cidade do Recife - 2007, numa edição especial para os 100 ANOS DO FREVO. Foram 726 composições participantes de todo o Brasil, das quais as 12 vitoriosas foram gravadas no CD 100 ANOS DO FREVO. Segue a letra:

Carijós, Canindés, Taperaguases,
Caboclo Tupy, Tapirapés,
Caboclinhos Tabajaras,
É ela a mulher, Senhora das Águas,
É ela a mulher, Ôô ô Iara...

Vem lá do Norte
O negro dos olhos
Cabelos e lábios de mulher

Deusa tão forte
Nas águas escuras
Caboclo se entrega aos seus pés

É guardiã
Dos rios, da mata,
Se enfeita com a flor do mururé

Ela é irmã
Do fogo que arde
No sangue da presa que lhe quer

Sirena chamou
Marujo sumiu
Sereia cantou
Iara levou
O tapuio p´ro rio

O canto que essa mulher detém
Toda floresta não será capaz
De suportar, de tanta magia,
Aracuã vadia, já não canta mais

Quando ela chega, leva mil reféns
No igarapé, sobressalta a paz,
Céu escurece e o vento esfria
Jassanã se avia, capiuara atrás

Iara é lenda que do povo vem
Mora na fé de todo rapaz
De se perder nessa febre estranha
Da pele castanha que a morena traz

quinta-feira, 12 de Julho de 2007

Por Trás Daquela Serra (Letra e Música de João Araújo) - Toada

REFRÃO:
Por trás daquela Serra
Habita um sonho bom
Quem dera, ai Deus, quem dera
Se a Lua fosse a seta
E a noite fosse o chão


Amiga fé me traga
Essa toada sem rancor
A minha dor é moça
Como ainda moço eu sou
Minha estrada é espinhosa
Mas a rosa vale a dor


Irmão poeta siga...
Essa cantiga é o coração
Vai dominando o espaço
Esparsando a solidão
Cristalina feito o orvalho
Genuína feito o grão


Meu jovem veja a luz...
Muito cuidado! A escuridão
Traz um sofrer medonho
Sem tamanho e direção
Mas o verde da alvorada
Ilumina esse refrão

Retalhos de um Bloco (Letra de João Araújo - Música de Nuca) - Marcha

Quando um Bloco se desfaz,
Não tem mais nenhuma razão
Nem alvorada, nem arrebol,
Nem Lua ou dia de chuva ou de Sol
Não há paixão e nem mais discórdia
A nossa história não tem futuro
Não há mais entrudo no chão
Isso tudo volta pra dentro do coração

Se o meu Bloco não sair
Não vou mais sentir emoção
Não sou da terra, nem sideral,
Eu não sou matéria ou espiritual
Eu perco o sonho, perco a labuta
Não acho a luta, nem acho a paz
Vermelho e branco não tem
Pois me falta o pranto e o riso também

Cordas, Retalhos...
Toca no fundo do meu coração,
Chama meu Verso-de-Bloco na mão,

Alegre ou triste a gente fecha esse cordão

Release

PERCURSO ARTÍSTICO:

João Araújo nasceu na Cidade do Recife, Brasil. Em essência, o seu trabalho consiste em explorar as múltiplas possibilidades criativas da “palavra” no que diz respeito à forma, aos gêneros textuais, às expressões artísticas diversas. Neste sentido, o trabalho e o significado do termo “escritor” ganham uma dimensão alargada, com vários modos de acesso aos campos artísticos: seja a música, a poesia, seja o conto, a crônica, o romance ou o ensaio. A “palavra” é uma ferramenta mágica entre o homem e o mundo, o indivíduo e o meio social, um veículo constituído de tijolos básicos que podem se recombinar constante e indefinidamente, assumindo várias formas distintas de expressão, dependendo, para tal, apenas do estado de espírito do seu artesão.

Como compositor e letrista, João Araújo traz nas suas obras iniciais uma forte influência das manifestações musicais pernambucanas, desde as sonoridades regionalistas do xote, baião, toada, embolada e côco, às nuances carnavalescas do frevo, caboclinho, maracatu, boi-de-carnaval e até do samba-enredo. Numa perspectiva mais universal, também compõe outros gêneros como a valsa, o samba, o choro, o bolero e a música pop. A tendência atual do seu fazer criativo de compositor é a de mesclar o regional com o universal, gerando composições que possibilitem melhor a utilização de recursos tecnológicos tanto na instrumentação musical de base quanto na sonoridade de efeitos eletrônicos.

Como produção própria, participou independentemente de 06 CD´s, onde atuou de maneira diversa na idealização, produção, pesquisa fonográfica, autoria, fotografia e projeto gráfico dos seguintes títulos: 1) Um Bloco em Poesia (2000); 2) Inspirações (2001); 3) Cordas para o Frevo (2001); 4) Pernambucarnaval (2003); 5) Verso & Canção (2003) e 6) Valsas Pernambucanas (2004). Além disso, atuou conjuntamente em projetos com artistas como, por exemplo, Dalva Torres (cantora), Bozó (violonista), Elyanna Caldas (pianista), Adalberto Cavalcanti (bandolinista) e Walmir Chagas (ator). Em shows, apesenta-se como percussionista, dando atenção maior ao pandeiro, seu instrumento preferido, sobre o qual elaborou um método de iniciação instrumental, em nível básico.

Como ensaísta, além de alguns artigos publicados, realizou pesquisas no campo da cultura popular, que renderam a edição de 3 livros: 1) A Commedia dell´Arte no Lirismo do Carnaval de Pernambuco (2005, autoria); 2) Sinfonia Carnavalesca (2006, organização conjunta com Dalva Torres); 3) 100 Anos de Frevo – Uma viagem nostálgica com os mestres das evocações carnavalescas (2007, em có-autoria com Margarida Pereira e Maria José Gomes). Um dos seus ensaios no campo da Literatura consta da elaboração de um itinerário crítico sobre uma parte do cancioneiro da compositora portuguesa Mafalda Veiga, utilizando-se do imaginário da matéria de Gaston Bachelard e que pode ser lido no site da Revista de Literatura e Artes Germina, publicado no link: http://www.germinaliteratura.com.br/literatura_set2007_joaoaraujo1.htm

Divulga um pouco o seu trabalho como compositor e produtor bem como o dos seus parceiros musicais pela Europa.
Em paralelo, continua compondo canções com seus parceiros, entre eles, a cantora e arranjadora Dalva Torres (muitas dessas composições relacionadas e divulgadas pelo grupo Um Bloco em Poesia, do qual Dalva Torres é a regente da orquestra e diretora artístico-musical) e com novos parceiros como o vocalista e guitarrista Sandro Cica.

PERCURSO ACADÊMICO:

Iniciou o seu percurso acadêmico no curso de Graduação em Física pela Universidade Federal de Pernambuco. Concluiu também o Mestrado pela mesma instituição, tendo sido orientado pelo Professor Doutor Antônio Murilo na área de Sistemas Mesoscópicos. Defendeu a tese: Estatística de Autovalores de Transmissão para Pontos Quânticos: uma Abordagem Supersimétrica. Depois do Mestrado, seus interesses pelo campo das Humanidades e das Artes, aos poucos, foram ganhando corpo. Neste contexto, realizou a Especialização em Literatura Brasileira, onde escreveu a monografia: A Commedia dell’arte no Lirismo do Carnaval de Pernambuco, um trabalho voltado para o estudo da cultura popular e que recebeu motivação dos Professores José Ricardo e Margarida Pereira.

Atualmente reside em Portugal, onde concluiu o Mestrado em Criações Literárias Contemporâneas em Évora, defendendo a Tese As Cidades, os Castelos e a Onda: Diálogos Interdisciplinares em Calvino, Escher e Bohr, cuja pesquisa, de forma genérica, mescla alguns conceitos das Ciências e das Artes. Neste mestrado teve a oportunidade de trabalhar com a Professora Doutora Cristina Santos (Departamento de Linguística e Literaturas da Universidade de Évora) e com a Professora Doutora Mariana Valente (Departamento de Física da Universidade de Évora).

Prosseguindo com os seus atuais interesses no campo da Filosofia das Ciências, especialmente da Física, é membro integrado do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, onde prepara o seu Doutorado. Este Centro, promotor de diversas atividades como workshops, ginásios, seminários e cursos, possui várias linhas de investigação, o que o caracteriza como um produtivo Centro Interdisciplinar. Dentre as linhas de investigação existentes, João Araújo encontra-se envolvido no projeto Fundamentos Filosóficos da Física Quântica, onde está trabalhando com os pesquisadores: Professor Doutor José Croca, Professora Doutora Olga Pombo, Professor Doutor Amaro Rica da Silva, Professor Doutor Rui Moreira e outros.

Seus atuais interesses giram em torno da Filosofia da Física, especificamente da Mecânica Quântica Ortodoxa e da Mecânica Quântica Não-Linear (especialmente um modelo causal que vem sendo desenvolvido pelo Professor Doutor José Croca).

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